PTEN

O presidente gigante

por Anik Suzuki em 23.01.18

Quando ele chegou ao meu escritório, eu sabia que seria uma reunião desafiadora. Recebo muitos empresários e executivos na ANK, mas, geralmente, vêm porque desejam o que temos para oferecer. Esse não. Ele estava ali, acredito eu, por pura gentileza e educação, já que fora convidado e cruzava comigo em eventos empresariais.

Ele é realmente muito competente naquilo que faz. Assumiu uma empresa quase quebrada e, em poucos anos, fez dela um negócio pujante, que cresce dois dígitos por ano em um setor consolidado, de margens espremidas e absolutamente sensível a crises. Mas não acredita que o nosso trabalho – ou qualquer outro similar – faça diferença para os negócios. Aliás, diferença, até faz: “expõe a empresa e gera custos”, sentenciou.

Minha missão era reverter esse paradigma.

Eu não tinha muito tempo, estava diante de um homem de finanças, ocupado, silencioso, convicto. Me armei de pincel atômico, me joguei no quadro branco e fui direto ao ponto: Reputação é…

Não lembro até onde cheguei. Só lembro mesmo é que o assunto derivou para a corrupção, a crise institucional do país, a falta de confiança nas instituições e até para a essência de cada um de nós. “Todas as pessoas sentem vergonha, sabem quando estão erradas, até mesmo os corruptos”, argumentou comigo. “Se você é honesto, fica diante de um corrupto e o olha nos olhos, ele baixa a cabeça, não consegue sustentar o seu olhar”. Eu discordei, mas ele insistiu: “Retidão te dá poder”.

E foi, então, que ele me contou sobre um programa que havia implantado na empresa para garantir que a organização fizesse o que é certo. Que cumprisse com o que havia prometido – seja por um único funcionário, seja pela voz da marca nos canais oficiais. E esse programa gerou para a empresa, além de muitos clientes satisfeitos e funcionários orgulhosos, um custo anual de R$ 1 milhão de reais. “É barato, Anik”.

Vendo meus olhos brilhando – ah, como eu gosto de reconhecer a ética e a integridade nas pequenas atitudes do dia a dia! – ele recostou na cadeira, molhou a garganta e começou a falar. E falou. Falou por mais de uma hora. Me contou histórias incríveis, algumas engraçadas, outras emocionantes, de funcionários e seus esforços magnânimos para honrar um compromisso com o cliente. Eu, que tenho sangue de repórter, tive vontade de entrevistar um a um, de contar essas histórias, de inspirar outras pessoas.

Quer dizer que aqui, bem perto de mim, existe uma empresa assim? Com esses valores? Com essa prática? Com esses exemplos? No meio de tanta bandalheira, quer dizer que uma empresa gaúcha, cujas sedes eu nunca visitei, nem como cliente, nem por curiosidade, é motivo de grande orgulho pra mim, e eu nem sabia?

Eu estava quase magoada.

“A vida não te dá muitas oportunidades de viver o momento da verdade. Momentos que provam que você realmente walking the talk”. Foi o que ele conseguiu me dizer. Que, simplesmente, dentro da empresa, eles faziam porque era certo e porque eram oportunidades de mostrar consistência com aquilo que prega. E só.

O tempo acabou, ele levantou e se despediu. O homem que entrou na ANK não era o mesmo que estava saindo. Aos meus olhos, ele, agora, era um gigante.

É exatamente isso que a Gestão de Reputação faz pelas empresas e pelas marcas, porém, em grande escala: AGIGANTA. Mas ele não acredita que faça diferença para os negócios, então, tudo aquilo ficou entre quatro paredes. Eu, os funcionários, algumas famílias de funcionários e alguns clientes cujas promessas não foram cumpridas e, por isso, acabaram recompensados pelo programa. E os outros clientes? E os não-clientes? E os funcionários dos concorrentes? E os fornecedores? E a comunidade do entorno? E os formadores de opinião? E os investidores?

Não me conformo. Vontade de descer correndo as escadas, alcançá-lo no térreo e dizer que a Gestão de Reputação revela o que as organizações têm de melhor, constrói vínculos de confiança, afeto e admiração. Valoriza o trabalho, a história, as pessoas. Une, engaja, inspira, posiciona, perpetua, constrói legado. Mas o quadro continuou branco e eu não encarei 10 andares de escada. Ainda não foi desta vez.

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